Capitulo
XV
Tudo
o que eu me lembro foi ter passado pelo portal e então algo forte
atingiu a minha cabeça, escutei Seth gritar o meu nome enquanto eu
caia no chão e tudo ficou escuro, foi um apagão que eu não sei
quanto tempo durou até que minha consciência começou à voltar,
meus olhos piscaram, mas não tinha muita luz ali, apenas uma luz
muito fraca que via de uma pequena abertura em uma porta.
Olhei
ao redor e percebi que eu estava no chão de uma espécie de quarto
muito escuro e apertado, as paredes, o chão e o que eu conseguia ver
do teto eram todos de cimento e eu estava incrivelmente tonta, não
tinha móveis ali, o local era retangular, devia ter cerca de 1,5m de
distancia entre as paredes laterais e 3m da parede de fundo até a
porta, mais 3m do chão até o teto.
Aquele
material, aquelas medidas, a altura... Apesar de nunca ter ido ali,
sabia bem onde era aquele lugar, eu li sobre ele diversas vezes e
nunca na minha vida eu imaginei que estaria ali um dia. Na prisão de
segurança máxima do castelo, do meu castelo e aquela porta era de
ferro, o que me deixava terrivelmente fraca.
A
porta tinha dois portinholas, uma embaixo e uma em cima por onde
conseguia ver um pouco de luz entrando a portinhola de baixo estava
fechada a de cima aberta. Ali era o local onde os prisioneiros de
maior periculosidade eram jogados às vezes na esperança de morrer
antes da execução, eu não precisava pensar muito para saber o que
tinha acontecido. Meu tio e minha prima de alguma forma descobriram
onde o portal foi aberto e conseguiram me capturar, mas será que eu
tinha sido a única?
Eu
me aproximei da porta, não o suficiente para o ferro dela me
machucar, mas o necessário para minha voz sair mais alta.
— Alguém?
— Eu usei toda minha força para falar, mas não era necessária,
pois no local se fez eco.
— Fay?
— Escutei uma voz preocupada que logo notei ser de Seth. — Como
você está? Te machucaram? Você está bem?
— Majestade
não se aproxime da porta, ela é de ferro. — Escutei a voz de
Blake gritar em seguida.
— Seth!
Blake! — Eu disse um pouco aliviada, não que eu quisesse que eles
estivessem ali, mas escutar a voz deles mostrava que eles estavam
vivo. — Mais alguém?
— Acho
que pegaram todos que passaram. — Blake respondeu. — Meu irmão
está aqui também... Eu vi quando entramos, eu acordei quando
colocavam ele na cela, mas talvez Lauren, Dial e Savannah tenham
escapado. Quando viram que eu acordei, me deixaram inconsciente de
novo.
— E
os outros solitários, quem veio atrás de mim? — Perguntei
preocupada com os demais.
— Apenas
eu passei, eles fecharam o portal. — A voz de Seth respondeu.
— Bem,
se Dial, Savannah e Lauren escaparam... Temos uma chance. —
Respondi esperançosa.
Eu
podia não conhecer Lauren muito bem, ela poderia querer viver uma
vida normal simplesmente mas eu sei que ela não nos deixaria ali, eu
sei que ela não deixaria principalmente Derek ali.
— Guardem
o folego de vocês. — Escutei a voz de Blake. — Normalmente eles
trazem comida uma vez por dia somente e eu não sei se Ariel e Macsen
vão continuar fazendo dessa forma.
Blake estava certo, os prisioneiros da ala de segurança máxima
tinham um regime forçado, alimentação uma vez por dia apenas,
afinal eles estavam ali aguardando apenas a data de sua execução,
então eles precisavam ficar apenas vivos para a execução e lembrar
de tudo o que eu fui ensinada me dava um frio enorme na barriga e um
medo terrível, pois se eu ficava já horrorizada ao estudar sobre
aquilo, saber que eu passaria por tudo aquilo era... Medonho, mas eu
não podia ter medo.
Guardei o máximo possível as minhas forças para poder estar bem
quando alguém aparecesse ali, tinha que manter a mente sã para
tentar arquitetar um plano.
O problema é que quanto mais tempo ficássemos ali, mais eu iria me
degastar pelo portão de ferro, o único que tinha uma chance real de
fazer algo era Seth, que não tinha a mesma alergia ao ferro que nos,
os seres encantados, tinham. O problema era pensar em como isso
poderia ser útil e como avisar à Seth.
Tentei me lembrar de todo o treinamento que eu tive, afinal mesmo
sendo uma princesa fui treinada para situações assim, todos os
monarcas tinham esses treinamentos para caso algo acontecesse no
castelo.
Primeira coisa que eu tinha que fazer era me localizar. Eu sabia que
as celas de segurança máxima, as chamadas solitárias, ficavam no
andar mais fundo do castelo, abaixo de todos os outros andares, a
parte boa é que eu conhecia o local onde eu estava, agora então
vinha o outro ponto. Contagem de tempo.
Como estávamos no andar mais inferior do castelo, tentar uma
contagem de tempo me baseando na luz do sol era impossível, eu teria
que conseguir outra contagem. Caso a alimentação fosse feita de
forma pontual, eu poderia me basear por isso, mas eu não sei se esse
método funcionaria, talvez eu pudesse inicialmente contar o tempo
pelo meu sono, não era a melhor forma de fazer isso, mas naquele
momento era tudo o que eu tinham.
Sem saber quanto tempo tinha se passado, após um longo silêncio
escutamos passos e algo sendo carregado, me levantei e fui para perto
do portão, esperando que conseguisse ver mesma a distância,
torcendo para que Seth tivesse tido a mesma curiosidade que a minha,
pois ele poderia ver melhor.
Eu só consegui ver a luz sumindo rapidamente quando os passos
estavam ao lado do portão e então uma das celas se abriu, e algo
foi jogado nessa, meu receio é de que o algo fosse na verdade
alguém.
Passado alguns minutos o mesmo procedimento e depois de novos minutos
novamente o mesmo procedimento, três algos ou três pessoas tinham
sido tragas até as celas, pelo barulho e o silêncio com certeza
estavam desacordadas, porém da ultima vez os passos simplesmente não
sumiram, uma das pessoas parou em uma das celas e disse.
— Para
que a curiosidade Mortal? Em breve você irá para o mesmo lugar que
esses daí foram. — Eu reconheci a voz de Declan e cerrei meus
punhos com raiva. — Só que não sei se irei trazer você de volta
Seth...
Capitulo
XVI
Lauren
O portal foi aberto, hora de voltar ao mundo encantado e tirar Ariel
do poder, hora de acalmar a corte das sombras e hora de nomear um bom
rei para o mundo encantado e eu sabia exatamente quem eu escolheria,
não sei se daria certo, mas essa era a pessoa que eu mais confiava
para tal.
Porém qualquer plano que eu tive foi embora quando eu passei e
encontrei soldados esperando a gente do outro lado, eu não sei como
eles sabiam do portal, onde se abriria e quando, eu apenas vi Dial e
Derek desmaiados e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa eles
apontaram as espadas para o peito dos dois.
— Um
passo e essa espada entrará direto no coração dele. — Um dos
soldados falou.
— Não
os machuque, eu não farei nada. — Respondi levantando as mãos em
formato de entrega. — Não estou carregando nada... Não sei quem
vocês são, mas apenas deixe os dois em paz.
Porém
antes que eu pudesse responder o barulho de alguém saindo do portal
chamou atenção de todos e me distraiu. Savannah, ninguém faria ou
conseguiria fazer algo contra ela e tive uma pontada de esperança
até sentir uma pessoa me agarrar e a ponta de algo que parecia
queimar em braza em meu pescoço quase cortando a minha pele.
— Não
faça nada assassina ou sua querida rainha morrerá. — A voz do
homem que me segurava era cheia de ódio e eu me lembro de tê-lo
escutado em um dos meus pesadelos.
Cerrei
meus punhos com ódio ao ver o medo estampado nos olhos de Savannah,
ela me olhou, não sei se esperava uma ordem minha ou apenas estava
perdida como eu.
— Escute
eles, eles estão com Derek... E Dial — Eu pedi para Savannah, se
fosse só eu ali eu diria para ela mata-lo, eu poderia tentar me
esquivar, mas sei que Savannah não conseguiria atacar a todos antes
de matarem Derek e Dial.
Savannah
também levantou as mãos em um sinal de rendida colocaram um saco em
sua cabeça e prenderam suas mãos com algemas de ferro, fizeram o
mesmo em Derek e Dial e por ultimo em mim e como aquilo queimava.
Antes
de colocarem o saco preto em minha cabeça um dos guardas pegou um
pedaço de madeira e acertou com força a cabeça de Savannah que
caiu direto no chão.
—
Não!!!!!!
— Eu gritei ao ver Savannah caindo, o saco foi colocado em minha
cabeça também e uma batida forte na cabeça tirou os meus sentidos.
Minha
cabeça começou a doer e uma luz muito forte me incomodava, usei
minha própria mão para fazer uma pequena sombra para descobrir onde
eu estava, a luz era tão forte que precisei piscar diversas vezes
para me acostumar com aquela luz, era como se alguém tivesse pego o
sol e colocado em um quarto pequeno. Não conseguia ver nada ali, era
horrivel, era incomodo, tatei o local e senti o chão e a parede, eu
estava em um lugar pequeno, um pequeno quarto pelo visto, fui
tateando tentando encontrar alguma saída daquela luz intensa mas era
apenas parede, parede e parede, senti um pequeno recuo na parede que
poderia indicar uma porta, mas ao colocar a mão nessa era como se eu
colocasse a mão em uma panela que tinha acabado de sair do fogão e
soltei um grito de dor.
— Lauren?
Lauren? É você? — Escutei a voz de Derek me chamar.
— Graças
a Deus, Lauren... — A voz de Savannah do lado de fora.
— Onde
vocês estão? — Gritei para fora. — Onde eu estou.
— Estamos
em uma prisão. — Derek respondeu, a voz dele estava mais próxima
do que a de Savannah. — A solitária do castelo do reino encatado.
— Não...
Não... — Eu falei apavorada, eu já tinha estado ali antes, não
na solitária, mas em uma das celas e a experiência tinha sido
apavorante, em uma solitária seria pior.
Me
abaixei, escorregando pela parede até me sentar no chão, de novo
naquele lugar não, eu não queria passar por aquilo de novo, a dor,
o medo.
— Lauren?
— A voz de Derek me chamou com urgência. — Me diga que você
ainda está aí, por favor.
— Estou.
— Eu respondi, naquele momento nem me importava com toda a
iluminação que me cegava e machucava. — Eu não quero passar por
isso de novo Derek... Eu não quero.
— A
gente vai dar um jeito, vamos ficar bem, seja forte, por favor. —
Ele me respondeu. — Nós vamos sair daqui... Apenas... Sobreviva,
por mim, por nós....
Eu
não o respondi, merda, merda, merda... Como eu sairia dali agora?
Como iria sobreviver? Como tiraria Derek, Savannah e Dial? Eu tentava
manter as esperanças de que as coisas dariam certo, mas sempre que
algo dava certo para mim, outras vinte coisas davam erradas.
Passos
ecoaram e eu me levantei, mesmo me sentindo meio tonta, se existia
alguma chance de eu fugir seria naquele momento, escutei uma porta se
fechar e uma tentativa de luta, alguém sendo jogado no chão e uma
voz sussurrando algo que não consegui entender, os passos se
afastaram.
— Derek?
Savannah? — Eu perguntei quando os passos se afastaram.
— Eu
estou aqui. — Escutei a voz da Savannah.
— Derek?
Derek? Derek, por favor fala alguma coisa! — Pedi desesperada. —
Derek!!!!! — Gritei — Por favor esteja aí, qualquer barulho por
favor!!!!
Savannah
também tentou chamar a atenção de Derek, mas ele não respondeu,
foi então que eu escutei novos passos e naquele momento não fiquei
quieta.
— Quem
está aí? O que você fez com o Derek? — Perguntei, mas a resposta
foi apenas o silêncio. — Quem está aí!!!!!?
Ninguém
respondeu, foi então que escutei o barulho novamente de uma porta se
abrir e novamente uma pequena confusão.
— Savannah,
não!!! — Eu não tinha certeza se era ela, mas parecia que só
tinha nós três ali. — Savannah fala comigo!!!!
— Eu
vou ficar bem Lauren! — Escutei a voz de Savannah e então alguém
a calou.
— Nem
nos seus sonhos. — Escutei alguém falar para ela. — Tudo depende
da sua rainhazinha aqui... E fique tranquila majestade já voltamos
aqui para te pegar.
Eu
corri para a porta e levei a mão até essa tentando empurra-la,
aquilo me queimou, mas eu não me importei, se conseguisse sair dali,
tirar Derek e Savannah, não me importava as queimaduras. Me ajeitei
cobrindo todo o meu corpo com a roupa e comecei a me jogar contra a
porta tentando derruba-la, tentei usar meu poder, mas o ferro me
enfraquecia, novamente os passos.
— O
que vocês fizeram com eles? Heim? Quem são vocês? O que fizeram
com eles? — Perguntei com raiva, mas não tive resposta. — Eu
exijo uma resposta, onde eles estão!
Os
passos se aproximaram e chegaram até a minha cela, uma voz falou em
um sussurro com raiva.
— Presta
atenção. — A voz disse. — Estamos com os dois e se você tentar
qualquer coisa os dois morrem, então você pode se acalmar e iremos
te levar para conversar sobre isso, ou iremos te imobilizar, levar a
força e você conversará conosco amarrada, ou verá os dois sofrer
até resolver conversar, o que você prefere?
Não
é como se eu tivesse escolhas, mesmo que eu conseguisse fugir dali,
como encontraria Savannah e Derek? E se os encontrasse, eu não sabia
onde eu estava, como fugiria com os dois? E Dial? Onde ele estava?
Não podia deixá-lo de lado, eu não tinha escolha e resolvi que
quanto melhor eu estivesse, melhor seria para mim e para eles.
— Eu
estou calma, eu vou com vocês. — Respondi.
— Coloque
as mãos na cabeça, se ajoelhe e não tente nada, iremos abrir a
cela e lembre-se que estamos com os dois. — A voz me disse.
—
Tudo
bem... — Coloquei as mãos na cabeça e me ajoelhei. — Pronto. —
Respondi e então a cela foi aberta.
Eu não me mexi conforme senti guardas se aproximarem e eu não
entendi como eles conseguiam enxergar naquela escuridão, mas vieram
até onde eu estava seguraram meus pulso virando-os para trás e
novamente, colocaram uma especie de luva nas minhas mãos que a
mantiveram fechadas e depois fecharam algemas, vendaram meus olhos e
então me puxaram para cima.
Senti uma mão nas minhas costas me empurrando para frente, iriamos
fazer um passeio pelo visto. Durante o trajeto tentei olhar ao redor,
tentar enxergar algo, mas tudo o que eu via era apenas a venda,
tentei me concentrar nos meus passos tentando decorar o caminho pelo
qual eu seguia, mas estava nervosa e ansiosa demais para isso, estava
querendo escutar a voz de Derek e de Savannah, saber que eles estavam
bem, era apenas isso que eu precisava. O nosso passeio não foi muito
longo e logo paramos de andar.
— Iremos
soltar suas mãos mas não tente nenhuma gracinha ainda estamos com
seus amigos. — A voz disse e eu apenas confirmei com a cabeça, ele
não precisava ficar me lembrando disso, eu sabia.
Soltaram
as algemas mas as luvas na minha mão continuaram, eles me sentaram
em uma cadeira e prenderam algumas tiras ao redor do meu tronco e dos
meus braços prendendo-os na cadeira e depois de conferir que estava
tudo preso e eu me sentir em uma cadeira elétrica tiraram a minha
venda e finalmente consegui ver algo.
Eu
estava em uma sala quadrada, a cadeira que eu estava parecia com
cadeira de escritório, dessas de braço e giratórias mas com uma
base mais pesado, não era uma cadeira de rodinha. A sala tinha uma
péssima iluminação e paredes brancas, as paredes possuíam
espelhos e eu não sabia como funcionava as coisas no mundo
encantado, mas se eu estivesse no mundo mortal eu juraria que aqueles
espelhos não eram espelhos simples, eu parecia estar em uma sala de
interrogatório.
Isso
se tornou mais real quando eu vi, uma garota que tinha uma idade
próxima a minha entrando na sala parecendo imponente, tentei me
mexer para ficar um pouco mais imponente também, mas as tiras
estavam tão apertadas que eu mal conseguia respirar.
— Não
adianta, essas luvas te impedem de usar qualquer magia contra mim. —
A garota respondeu.
— Bem,
já sei que o seu poder não é o de ler mentes, pois não foi essa
minha intenção... — Respondi.
A
garota me olhou por um tempo me analisando e eu não tinha vontade
nenhuma de analisa-la, ela era uma bostinha metida, era a tal da
Ariel.
— A
propósito. — Eu respondi. — Obrigada por matar Owen para mim,
ele era um pé no saco, resolveu grande parte dos meus problemas.
— Quem
disse que eu o matei? — Ela pergutou.
— Eu
vi, você e um cara que descobri que é seu pai, eu vi os dois. Eu vi
como foi, até o ultimo suspiro. — Respondi olhando para ela —
Diga que não foi você.
Criaturas
encantadas não podiam mentir, eu sabia disso e ela também, então
ela não poderia mentir, havia guardas ali que não sabiam disso e eu
queria ver como ela se sairia.
E
a forma que ela se saiu foi me dando um tapa enorme no rosto, eu não
pensei que uma garota que parecia ser tão delicada pudesse bater tão
forte.
— Você
não pode provar isso!!!! — Ela falou. — Pode?
Como
provar isso? Algo que só eu e Fay tinhamos visto, não tinhamos como
provar, poderiamos o tempo todo falar que tinhamos visto em um sonho,
mas como se fazer acreditar? Eu não tinha como provar e ela sabia
disso, provavelmente todo o esquema foi muito bem feito para tirar
qualquer suspeita dela e com isso nem a interrogarem, se bem que eu
não sabia como funcionava as leis no mundo encantado, mas depois da
morte do rei e o desaparecimento de Fay não existia ninguém ali que
poderia exigir que ela fosse interrogada.
— Eu
não preciso provar, eu, você e Fay sabemos disso, seu pai também...
Para mim é o suficiente. — Eu respondi.
— Então,
você não pode provar, não tem nada que possamos fazer, porque não
encerrar esse assunto? — Ela sugeriu.
— Eu
tenho alguma escolha? — Perguntei, mesmo sabendo a resposta.
— Não.
— Ela respondeu. — Lauren, não quero te machucar muito, não se
não for necessário.
— Começou
errado então queridinha... — Respondi. — Sabe se apertar mais um
pouquinho essas tiras acho que você vai me cortar ao meio.
— Que
bom, disse que não quero te machucar muito, mas é bom que saiba que
não ficará confortável enquanto não decidirmos sobre certos
assuntos. — Eu estava começando a achar a voz dela um bocado
enjoada. — Bem, como você provavelmente já percebeu, você é a
herdeira do trono das sombras e bem, eu tenho o desejo de governa-lo.
Eu sei que você passou muitos anos no mundo mortal e com certeza não
tem o preparo que eu tive para isso. Por isso eu ficaria muito feliz
se você simplesmente abrisse mão e me tornasse rainha, o ritual
para isso é bem rápido e prático, sem dor nem sofrimento.
— Só
isso? — Perguntei com um grande tom de ironia. — Porque não
falou antes? Poderíamos ter tido essa conversa enquanto tomávamos
um chocolate quente e depois comemorar em um shopping. — Falei
fazendo cara de animada. — Eu não precisaria nem ter vindo aqui
para dar um não na sua cara. — Respondi ainda sorrindo. — Era só
isso priminha?
— Bem...
Eu sabia que não seria tão fácil, então talvez eu precise te
convencer. — Ela respondeu se levantando.
— Quais
coisas legais você irá fazer para me convencer então? Me deixar
cega em um quarto de luz? Me acorrentar com ferro? Talvez até mesmo
sei lá... Massagear minha pele com uma sessão de tapas e socos? —
Eu fiquei séria. — Deixa eu te dar um spoiller, já fizeram isso e
bem... Aqui eu estou... Acredite eu já tive no inferno e sai de lá,
então pode mandar bala.
— É
eu soube da sua resistência da ultima vez que veio aqui... Mas veja
priminha eu descobri seu ponto fraco. — Ela respondeu.
Duas
luzes se acenderam mostrando que minhas suspeitas estavam corretas,
os espelhos não eram totalmente espelhos, os espelhos que estavam
nas laterais da sala sumiram, dando lugar a janelas, as janelas davam
lugar à outras duas salas iguais a que eu estava, eu olhei na
direção das salas e em cada uma tinha uma pessoa presa a cadeira
igual à mim, com a diferença de que eles estavam vendados, quando
Ariel movimentou a cadeira eu os reconheci.
—
Por
qual dos dois vamos começar? — Ariel disse. — O guarda ou a
assassina? Pode escolher.
À
minha direita estava Derek e a minha esquerda Savannah, um guarda
entrou em cada sala e eu tinha certeza que o baú que ele carregava
não teria tesouros...
Capitulo
XVII
Bree
O
portal tinha sido fechado, ninguém sabia o porque e ninguém sabia
como, só estava uma verdadeira bagunça, ninguém sabia o que fazer,
todos os que poderiam controlar e assumir alguma postura tinham
desaparecido com o portal, Dial, Lauren, Fay, Derek, Blake. Era muito
falatório, até que finalmente alguém tomou as rédeas, Math com a
ajuda de Lucian.
—
Silêncio...
Silêncio todos! — Math tentou pedir a atenção da todos ali.
— Eu
terei que pedir para os meus fazerem vocês ficarem quietos? —
Lucian vociferou e então todos se calaram.
— O
que aconteceu com eles? — Alguém perguntou.
— Estão
mortos? — Outro sugeriu.
— Não,
pelo menos Lauren está viva. — Lucian falou. — Eu não sei se
está bem ou não, mas com certeza está viva.
— Como
pode ter tanta certeza? — Um dos solitários mais novo perguntou.
— Tenho
uma ligação direta com ela, se ela tivesse morrido, eu saberia com
certeza. — Lucian respondeu.
— Mas
aonde eles estão? — Outro solitário perguntou.
— Eu
não sei... — Lucian olhou para Math que balançou a cabeça de
forma negativa. — Ainda não sabemos.
— Olha,
não sabemos o que aconteceu, mas o portal simplesmente sumiu. —
Math começou a falar. — Não temos nem mesmo vestígio dele aqui,
eu sei que estão assustados e com muitas dúvidas, mas não temos
como responder agora, peço a paciência de todos.
— O
que devemos fazer enquanto isso? — Uma mulher perguntou.
— Esperar.
Aqui, irem para suas casas. — Math respondeu. — Olha só galera,
vocês confiavam no meu pai não confiavam? Eu sei que não sou ele,
mas sempre estive com ele, por dentro de tudo para resolver os
problemas, então confiem em mim, não irei deixa-los desamparado.
— Eu
conheci a Lauren antes de todos vocês. — Adam falou chamando a
atenção para ele e para mim que estava do lado dele. — E tenho
certeza que Lauren está pensando em como abrir o portal para vocês,
se ela que fechou, foi para protegê-los de algo.
— Fay
também... — Eu completei. — Eu sei que é difícil acreditar na
justiça dela quando muitos foram expulsos do reino encantado
injustamente por Owen, mas Fay não é igual a ele, ela se arriscaria
pelos inocentes.
Eu
podia não gostar da Fay, afinal se não fosse por ela seria a mim
que o Seth amaria, mas eu não podia ser injusta, não podia falar
que ela era má, quando me salvou de minha punição e quando se
colocou em risco para salvar Lauren que na época era uma total
desconhecida.
Eu
vi no olhar de Adam um pequeno brilho passar, como se ele tivesse
tido uma ideia e ele apenas olhou para Math, uma troca de olhar
rápida e olhou para a sua banda, Math confirmou com a cabeça e
então chamou atenção para si.
— Quem
desejar ir para casa, quem estiver bem para ir, podem aguardar por
noticias que eu farei o contato com todos em breve.
— E
quem não desejar, a banda “Os Solitários” terá um grande
prazer em entretê-los. — Adam completou.
Aos
poucos as pessoas foram se ajeitando, algumas foram para casa, outros
seguiram a banda de Math e eu juro que não entendi o porque da ideia
do show em plena uma crise como aquela, por isso me juntei à Math e
Lucian.
— Qual
a parada da banda? — Perguntei quando estavamos apenas nós três.
— O
dom do pessoal da banda é mexer com as emoções através da música.
— Math explicou. — Adam poderá acalmar à todos enquanto
ganhamos tempo pensando no que pode ter acontecido.
— Okay.
Realmente foi uma boa ideia. — Eu respondi. — Vocês tem alguma
idéia do que pode ter acontecido?
— Bem,
eu estou pensando na hipótese de com a passagem das duas o portal
ter se fechado, afinal foram as duas que abriram o portal. — Math
explicou.
— Se
fosse isso, Seth não teria passado. — Lucian lembrou.
— É
fora que eu li aquele encantamento, e em nenhum momento disse que uma
tinha que ficar aqui. — Eu respondi.
— Eu
também imaginei isso... Mas não queria pensar na outra hipótese. —
Math respondeu.
— E
qual seria? — Perguntei.
— Bem,
sabemos que Lauren está viva, mas não sabemos da Fay e os demais. —
Math começou a dizer. — Quando Seth entrou ele gritou pelo nome da
Fay, ele viu algo acontecer e mãos o puxaram, não era a mão de
nenhum dos que passaram... Foi uma armadilha, alguém estava a espera
deles.
— O
que vamos fazer então? — Eu perguntei.
—
Descobrir
alguma outra forma de irmos para o mundo encantado e descobrir o que
aconteceu com os demais. — Lucian respondeu e olhou para Math. —
Certo?
Capitulo
XVIII
Lauren
E
então ali sem eu poder fazer nada Derek começou a ser torturado e
enquanto ele sofria com a tortura do afogamento Ariel me dizia
exatamente o que ele estava passando e sentindo, eu tentei me soltar,
tentei me debater, mas nada.
— Você
sabia que nesses momentos o corpo tenta respirar e a agua acaba indo
direto para os pulmões? Você já se afogou Lauren? Sabe o que
acontece? O desespero da pessoa? Bem, talvez Derek possa te dizer
quando tudo acabar. — Ariel começou a me dizer.
Naquele
momento eu não sabia o que fazer, eu devia pedir para ela parar, ela
provavelmente iria me obrigar a desistir do trono, eu não podia
fazer isso, sei que se eu abdicasse do trono a vida de todos na mão
de Ariel seria um inferno e se ela não matasse a mim e ao Derek,
faria Savannah nos matar.
Eu
não tinha escolhas ali, me lembrei das visões dos pesadelos e me
lembrei de outros prisioneiros passando por isso, como eu poderia
decidir por eles? Como eu poderia colocar a vida de tanta gente nas
mãos dela? Nunca, eu nunca faria isso, eu iria sair dessa e a
mataria com minhas próprias mãos.
Eu
sabia que ela estava usando Derek para mexer comigo, por isso tentei
não chorar, colocava na minha cabeça que aquele não era o Derek,
eu o vi sofrer por um longo tempo, seus gritos de dor até estes
cesarem, ele ficou insconsciente.
Por
diversas vezes quando meu pai bêbado me culpava pela fuga da minha
mãe e me batia eu não chorei, não porque eu não estava sentindo
dor, mas porque eu não queria demonstrar que ele estava me
machucando, as palavras dele assim como todos os socos doíam, mas eu
aprendi a chorar em silêncio, chorar sem lágrimas, chorar por
dentro enquanto me mantinha forte por fora e foi isso que eu fiz, não
mostraria para Ariel o quanto aquilo tinha me afetado, porque se eu
demonstrasse ela sempre o usaria contra mim.
— Então
temos uma durona... — Ariel falou ao olhar para mim — Veremos se
é assim tão durona.
Então
virou minha cadeira para onde Savannah estava e o processo se repetiu
nela, talvez por sua natureza, Savannah demorou mais para ter gritos
arrancados, mas quando foi feito aqueles gritos cortaram meu coração,
mas eu tinha que me manter forte, se Ariel acreditasse que
machuca-los não me machucaria, desistiria de fazer algo com eles e
talvez até os libertasse.
Um
longo tempo depois Savannah também se calou, um medo grande de que
eles estivessem mortos tomou o meu corpo, mas se eles tivessem
morrido, Ariel não teria nada contra mim, então provavelmente ela
não permitiria que eles morresem, por favor, que eu esteja certa.
— Nem
uma lágrima? — Ariel me perguntou.
— Estão
mortos? — Perguntei tentando esconder o medo.
— Ainda
não, a morte é algo muito rápido, para que matar logo se posso
vê-los sofrer. — Ela respondeu com um sorrisinho.
— Vou
lembrar disso quando for te matar. — Respondi com ódio a olhando.
Ariel riu, um riso de escárnio e zombaria
— Acho
meio difícil de isso acontecer. — Ela respondeu. — Mas devo
confessar que eu não apostava tanto em você assim, talvez seja só
porque você não sabe como os dois sofreram, então, talvez você
deva sentir, quem sabe assim você não pensa melhor na minha
proposta?
Então
dois guardas entraram na sala e eu sabia que aquele seria o momento
onde eu sentiria tudo o que Derek e Savannah sentiram, só esperava
ser tão forte quanto eles. Sem ter os olhos vendados a cadeira que
eu estava virou, se transformando em uma cama e o encosto da cabeça
sumiu, meu corpo foi colocado em uma posição diagonal com a cabeça
em uma altura abaixo a dos pés, uma luz branca quase me cegando e um
calor infernal tomaram conta da sala.
— Aqui
vai ficar muito desconfortável, então, te espero do outro lado. —
Ariel
respondeu, saindo da sala foi então que eu senti o pano em minha
boca e a água sendo derramada.
Minha
primeira reação foi me mexer incomodada, uma sensação de
afogamento me deixou em pano, eu não conseguia respirar, eu não
consegui pensar, foi então que parei, tentei me controlar e me
lembrei que a água não poderia me machucar, bastava eu assumir o
meu controle, eu poderia até mesmo usá-la
como arma.
Me
concentrei em fazer a água
não descer mais pela minha boca, tentando impedi-la de entrar, foi
difícil, muito difícil me concentrar em algo com a sensação de
afogamento, mas quando eles pararam pela primeira vez foi a
oportunidade que tive para recuperar o controle e olhei para a água
ainda no balde, não tive muito tempo para pensar em como agir, mas
da segunda vez que tamparam meu rosto e jogaram a água
a mesma não caiu do balde, acho que demorou um pouco para notarem o
que estava acontecendo.
— Mas
ela não pode controlar a água
aqui, os poderes dela não podem ser usados. — Um dos guardas
disse.
— Na
verdade o poder não é totalmente anulado, ele apenas se torna mais
fraco. — O outro respondeu.
Os
dois ficaram calados e depois de um tempo a porta se abriu, mesmo que
eu tivesse acabado de conhecer Ariel consegui perceber que aquela era
a voz dela.
— Então
você não quer cooperar não é mesmo? Bem, tenho outras cartas na
manga queridinha. — Mesmo com o rosto tampado, eu senti o rosto
dela perto do meu.
Ela
retirou o pano do meu rosto e então antes que eu pudesse fazer
qualquer coisa para controlar os guardas dela me molharam, dessa vez
totalmente e dessa vez a mesma estava quente, por isso não consegui
controlar o grito de dor.
— Vamos
deixar
você mais eletrizante. — Ela disse parecendo animada e então seus
guardas começaram a ligar um bando de fio em mim.
Mesmo
não tendo certeza de como as coisas no mundo encantado funcionavam,
eu podia prever que a frase dela mais aqueles fios iriam me trazer,
choques eu tentei me mexer para tirar os fios mas não consegui,
tinha até mesmo alguns na minha cabeça.
— Você
sabe que água conduz eletricidade não é mesmo? — Ela me
respondeu e sorriu
para um dos guardas confirmando com a cabeça.
Foi
então que uma onda de choque percorreu todo o meu corpo, junto com
uma dor excrucial, aquilo durou segundos e quando parou eu respirei
rapidamente antes de sentir novamente o choque percorrer o meu corpo,
outra e mais outra e mais outra vez.
A
cada nova onda de choque Ariel fazia com que os choques fossem mais
longos e o intervalo mais curto, era como se ela soubesse o quanto eu
conseguiria resistir, o meu limite, e parasse antes de ultrapassá-lo.
Depois
de 8 sessões de choque a pausa foi um pouco maior, ao invés de mais
uma onda de choque, o que veio foi novamente a água quente, eu não
tinha forças para gritar, Ariel se colocou ao meu lado.
— Pronta
para me entregar o reino? — Ela me perguntou olhando nos meus
olhos.
— Nunca...
— Eu cuspi as palavras. — Terá que me matar primeiro...
— Vamos
ver se continuará esse pensamento. — Ela respondeu e mais um aceno
antes de eu sentir a onda de choque percorrendo cada músculo do meu
corpo.
Mais
oito sessões, cada vez mais longas e novamente água, novamente a
pergunta de Ariel, mas a cada grito que ela me fazia dar, era mais um
motivo pelo qual eu nunca daria o reino para ela, um psicopata
tem que estar preso e não em um trono.
Eu
já tinha perdido as contas de quantos choques eu tomei, as coisas
estavam turvas à minha frente e meu corpo doia tanto que começou a
ficar anestesiado pela própria dor, é como se ele não pudesse
sentir mais dor do que sentiria normalmente.
— Então...
Já mudou de idéia? — Ariel me perguntou. — Acha mesmo que vale
a pena tanto sofrimento por pessoas que você não conhece.
— Nunca...
— Eu respondi, com a voz baixa, um murmuro não por medo de falar
alto, mas por não conseguir mesmo. — Eu prefiro dar o reino para
um mortal qualquer do que te deixar no comando dele, você nunca vai
conseguir ele...
— Você
se arrependerá disso, eu posso ser persistente. — Ariel respondeu.
— Foda-se...
— Eu respondi e dei um sorriso para ela, não de felicidade, mas
sabendo que por maior que fosse o poder dela, isso ela nunca
conseguiria de mim.
Senti
um soco forte no rosto de uma Ariel raivosa que simplesmente saiu do
meu lado
pegando ela mesmo o balde de água quente e jogou em mim.
— Vai
se arrepender disso, vamos ver agora até onde você aguenta. — Ela
respondeu com raiva e
foi até a máquina que controlava os choques.
Então
novamente uma onda elétrica percorreu o meu corpo, mais longa que as
anteriores, eu tentei resistir ao máximo mas simplesmente tudo se
apagou.